Quando um trabalhador entra na Justiça para discutir uma doença ocupacional, um acidente de trabalho ou uma incapacidade causada ou agravada pelo emprego, existe uma etapa que pode ser decisiva para o resultado do processo: a perícia médica judicial.
É nesse momento que um profissional especializado é chamado para avaliar a condição de saúde do trabalhador e responder a questões importantes para o processo.
Mas existe um detalhe que muitas pessoas desconhecem: não basta simplesmente comparecer à perícia e contar ao médico o que aconteceu.
A preparação para esse momento pode fazer diferença na forma como os fatos são apresentados, na documentação analisada e nos pontos que serão discutidos no processo.
Por isso, contar com um advogado que tenha experiência em ações envolvendo saúde do trabalhador pode ser especialmente importante.
O que é a perícia médica trabalhista?
A perícia médica é uma avaliação realizada por um profissional nomeado pelo juiz para analisar questões técnicas relacionadas à saúde do trabalhador. Em processos que discutem doenças ocupacionais, por exemplo, a perícia pode ajudar a esclarecer:
qual é a doença ou lesão apresentada;
se existe incapacidade para o trabalho;
qual o grau dessa incapacidade;
se há relação entre a doença e as atividades profissionais;
se o trabalho contribuiu para o surgimento ou agravamento da doença;
quais limitações podem existir.
Esse último ponto é especialmente importante porque uma doença não precisa ter sido causada exclusivamente pelo trabalho para que a atividade profissional tenha relevância jurídica. Em determinadas situações, o trabalho pode ter contribuído para o surgimento ou agravamento do problema, caracterizando uma concausa.
O próprio Tribunal Superior do Trabalho possui estudos que destacam a importância da perícia para avaliar não apenas a existência da doença, mas também a relação entre o problema de saúde e o trabalho realizado.
O perito decide quem tem razão?
Não.
Essa é uma dúvida muito comum.
O perito judicial não é o juiz e não decide quem ganhou ou perdeu o processo. Sua função é apresentar uma análise técnica sobre as questões médicas discutidas na ação.
Depois, o juiz avalia o laudo pericial junto com as demais provas existentes no processo. Por isso, um laudo desfavorável não significa necessariamente que todas as possibilidades terminaram, assim como um laudo favorável não garante, sozinho, a vitória na ação.
O conjunto de provas continua sendo fundamental.
Por que o advogado pode fazer diferença antes da perícia?
A preparação começa muito antes do dia marcado para o exame.
Um advogado especializado pode analisar o histórico do trabalhador e identificar quais informações são relevantes para demonstrar a relação entre a doença e o trabalho. Isso pode envolver a análise de:
exames médicos;
prontuários;
atestados;
relatórios de médicos e psicólogos;
receitas;
histórico de afastamentos;
documentos fornecidos pela empresa;
CAT;
PPP;
descrição das atividades exercidas;
jornada de trabalho;
mudanças de função;
registros de acidentes;
documentos relacionados ao ambiente de trabalho.
Essa organização é importante porque, em muitos processos, a discussão não está apenas na existência da doença, mas na relação dela com o trabalho.
O que são os quesitos da perícia?
Os quesitos são perguntas apresentadas pelas partes ao perito judicial. Eles servem para direcionar a análise dos pontos técnicos relevantes para o processo.
É justamente aqui que a experiência do advogado pode fazer diferença.
Imagine, por exemplo, um trabalhador que desenvolveu uma doença na coluna depois de anos realizando atividades que exigiam levantamento frequente de peso.
Uma pergunta genérica poderia simplesmente questionar se ele possui alguma doença. Mas uma análise mais cuidadosa pode buscar esclarecer questões como:
As atividades realizadas pelo trabalhador exigiam esforço físico repetitivo?
Esse tipo de atividade pode contribuir para o surgimento ou agravamento da doença apresentada?
As limitações identificadas são compatíveis com as atividades profissionais exercidas?
Existe incapacidade para a função anteriormente desempenhada?
São perguntas diferentes — e podem levar a uma análise muito mais completa do caso.
E se o trabalhador já tiver uma doença anterior?
Isso também não significa, automaticamente, que a empresa não possa ter responsabilidade.
Uma pessoa pode ter uma condição de saúde anterior e, posteriormente, apresentar uma piora relacionada às atividades profissionais.
Nesses casos, é importante investigar se o trabalho causou, desencadeou ou agravou a doença.
Essa análise é especialmente relevante nas chamadas concausas, em que o trabalho não é necessariamente a única causa do problema, mas contribui para seu desenvolvimento ou agravamento. A própria Revista do Tribunal Superior do Trabalho aborda a concausa como hipótese relevante de responsabilização em doenças ocupacionais.
O que acontece no dia da perícia?
No dia marcado, o trabalhador será avaliado pelo perito judicial. É importante responder às perguntas com clareza e sinceridade, explicando:
quando os sintomas começaram;
como eles evoluíram;
quais atividades eram realizadas;
quando houve mudança de função;
quais movimentos ou esforços eram exigidos;
quais tratamentos foram realizados;
se houve afastamentos;
quais limitações existem atualmente.
Não é necessário exagerar os sintomas nem tentar decorar respostas.
O mais importante é relatar os fatos de maneira verdadeira, objetiva e coerente com os documentos médicos e com o histórico profissional.
O advogado pode acompanhar a perícia?
A atuação do advogado não substitui a avaliação médica.
O advogado pode orientar o trabalhador sobre o procedimento, preparar a documentação, formular quesitos, apresentar manifestações sobre o laudo e, quando necessário, questionar pontos que não tenham sido suficientemente esclarecidos.
Dependendo da situação, também pode ser necessária a atuação de um assistente técnico, profissional
habilitado que acompanha a perícia e pode elaborar um parecer técnico para a parte.
Essa estrutura pode ser especialmente importante em casos mais complexos.
E se o laudo pericial estiver errado ou incompleto?
O laudo não é necessariamente uma prova intocável.
Se houver contradições, omissões ou conclusões que não estejam devidamente fundamentadas, a parte pode apresentar manifestação e solicitar esclarecimentos, conforme o caso.
Por isso, é importante que o advogado saiba interpretar o conteúdo do laudo e identificar possíveis problemas técnicos ou incompatibilidades com as demais provas do processo.
Em uma ação envolvendo doença ocupacional, por exemplo, pode ser necessário verificar se o perito realmente analisou as atividades desempenhadas pelo trabalhador ou se considerou apenas o diagnóstico médico.
Por que escolher um advogado especialista?
A Justiça do Trabalho lida diariamente com uma enorme quantidade de processos.
Em 2024, a Justiça trabalhista julgou mais de 4 milhões de processos, segundo dados divulgados pelo CNJ. O número mostra a dimensão da atuação da Justiça do Trabalho no país.
Dentro desse universo, existem processos com questões médicas, trabalhistas e previdenciárias bastante específicas.
Por isso, um profissional familiarizado com esse tipo de demanda consegue compreender melhor a importância de documentos médicos, histórico ocupacional, nexo causal, concausa, incapacidade e demais elementos que podem influenciar a discussão.
A especialização não significa garantia de resultado, mas pode proporcionar uma atuação mais estratégica e preparada para as particularidades de cada caso.
Perícia médica não é apenas "ir ao médico"
Esse talvez seja o principal ponto que o trabalhador precisa entender: a perícia judicial não deve ser encarada como uma simples consulta médica.
Ela faz parte de um processo judicial e busca responder questões específicas relacionadas à controvérsia existente.
Por isso, a preparação adequada pode ser importante para que o trabalhador consiga apresentar sua história profissional e médica de forma clara, coerente e documentada.
Em processos trabalhistas envolvendo acidente, doença ocupacional ou incapacidade, a perícia médica pode ter um papel muito importante.
Mas o resultado não depende apenas do que acontece dentro do consultório do perito.
A organização dos documentos, a elaboração dos quesitos, o acompanhamento do processo e a análise do laudo são etapas que também merecem atenção.
Por isso, contar com um advogado especialista em Direito do Trabalho e em demandas relacionadas à saúde do trabalhador pode fazer diferença na condução do processo.
Afinal, quando a discussão envolve saúde, trabalho e direitos, cada detalhe pode ser relevante.

