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Fizeram um financiamento usando seus documentos e você não ficou sabendo? O que fazer?

L.E. Guimarães1 de outubro de 20267 min de leitura
Fizeram um financiamento usando seus documentos e você não ficou sabendo? O que fazer?

Imagine consultar seu CPF e descobrir que existe um financiamento que você nunca contratou. Ou receber uma cobrança de parcelas de um veículo, empréstimo ou outro bem que sequer foi adquirido por você. A situação pode causar preocupação, principalmente quando a instituição financeira afirma que o contrato está vinculado aos seus documentos.

Esse tipo de situação pode acontecer quando criminosos conseguem acesso a documentos, dados pessoais, fotografias ou informações utilizadas para confirmar a identidade de uma pessoa. Em alguns casos, os fraudadores chegam a utilizar reconhecimento facial ou outros mecanismos digitais para tentar contratar operações financeiras em nome da vítima.

O problema está longe de ser pequeno. Uma pesquisa do Banco Central, realizada com dados de 2023, apontou que 26% dos brasileiros entrevistados disseram ter sido vítimas de algum tipo de golpe ou fraude nos dois anos anteriores. Entre os produtos financeiros, os golpes relacionados ao cartão de crédito apareceram com destaque.

Além disso, em 2025 foram registrados cerca de 2,2 milhões de boletins de ocorrência relacionados a estelionatos praticados por meios digitais no Brasil, segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Por isso, se apareceu um financiamento em seu nome que você não reconhece, é importante agir rapidamente.

Financiamento feito com meus documentos: a dívida é minha?

Se você não contratou o financiamento, não reconhece a operação e houve utilização indevida dos seus documentos ou dados pessoais, a existência de um contrato vinculado ao seu CPF não significa, por si só, que você seja responsável pela dívida.

Em uma situação de fraude, é necessário investigar como a contratação foi realizada, quais documentos foram apresentados, de que maneira a identidade foi confirmada e para onde foram destinados os valores ou o bem financiado.

O Banco Central orienta que, ao identificar uma dívida não reconhecida no Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR), o consumidor procure a instituição financeira responsável pelo registro e solicite a correção ou exclusão da informação. Se o problema não for resolvido, é possível recorrer à ouvidoria da instituição e, posteriormente, registrar uma reclamação no próprio Banco Central.

O banco pode ser responsabilizado pela fraude?

Em determinadas situações, sim.

O Código de Defesa do Consumidor estabelece a responsabilidade objetiva do fornecedor de serviços pelos danos causados por defeitos na prestação do serviço.

Além disso, o Superior Tribunal de Justiça possui entendimento consolidado na Súmula 479 de que as instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos decorrentes de fraudes e delitos praticados por terceiros quando relacionados aos riscos das próprias operações bancárias.

O próprio STJ já aplicou esse entendimento a situações envolvendo empréstimos contratados mediante fraude ou utilização de documentos falsos.

Isso não significa, entretanto, que toda fraude resulte automaticamente em indenização. Cada caso precisa ser analisado de acordo com as circunstâncias da contratação, as medidas de segurança adotadas pela instituição, as provas disponíveis e os prejuízos efetivamente causados à vítima.

O que fazer ao descobrir um financiamento que você não contratou?

A primeira providência é entrar em contato com a instituição financeira responsável pelo financiamento e informar formalmente que a contratação não foi realizada por você.

É importante solicitar o número do protocolo de atendimento e pedir uma cópia integral do contrato, dos documentos utilizados na contratação e das informações disponíveis sobre a operação. Dependendo do caso, podem ser relevantes dados como IP, localização, registros de acesso, comprovantes, imagens utilizadas na validação da identidade e informações sobre a conta que recebeu os valores.

Também é recomendável registrar um Boletim de Ocorrência, descrevendo que seus documentos e dados pessoais foram utilizados sem autorização. O Ministério da Justiça orienta que a vítima registre o ocorrido e reúna provas, como mensagens, documentos, registros de chamadas e demais informações relacionadas à fraude.

Se você não sabe sequer qual instituição financeira realizou a operação, o Banco Central recomenda consultar o Registrato, que permite verificar informações sobre contas e empréstimos vinculados ao CPF.

E se o financiamento já estiver sendo cobrado?

Mesmo que a instituição financeira tenha iniciado a cobrança, isso não significa que a vítima deva simplesmente aceitar a dívida como sua.

O consumidor deve contestar formalmente a contratação e guardar todos os documentos que comprovem a contestação. Também é importante verificar se houve inscrição do CPF em cadastros de inadimplentes ou outros registros decorrentes daquele financiamento.

Quando a fraude não é solucionada administrativamente, pode ser necessário buscar o Poder Judiciário para discutir a inexistência da relação contratual, a inexigibilidade da dívida e, conforme as circunstâncias, eventual indenização pelos danos sofridos.

Em situações urgentes, também pode ser analisada a necessidade de uma medida judicial para impedir ou suspender determinados efeitos da cobrança enquanto a questão é discutida.

Quais provas podem ajudar?

Quanto mais informações forem reunidas, melhor será a possibilidade de esclarecer como a fraude aconteceu.

Entre os documentos que podem ser importantes estão o contrato do financiamento, boletim de ocorrência, protocolos de atendimento, mensagens enviadas pela instituição, comprovantes de cobrança, consulta ao Registrato, comprovantes de eventual negativação e documentos que demonstrem que a vítima não participou da contratação.

Também pode ser importante demonstrar que o dinheiro não foi recebido pela vítima ou que o bem financiado não foi entregue a ela. Em determinados casos, a própria análise dos documentos apresentados no momento da contratação pode revelar inconsistências.

Por isso, não é recomendável apagar mensagens, perder protocolos ou descartar documentos relacionados ao caso.

A instituição financeira deve verificar a identidade de quem contrata?

Sim. A prevenção de fraudes faz parte da segurança esperada na prestação dos serviços financeiros.

O Banco Central informa que as instituições devem adotar procedimentos e controles para verificar a identidade dos clientes e a autenticidade das informações, além de buscar segurança, integridade e sigilo nas operações financeiras.

Isso é especialmente relevante em contratações realizadas de forma digital, nas quais documentos, fotografias, dados pessoais e mecanismos de reconhecimento facial podem ser utilizados para confirmar a identidade do consumidor.

O próprio Banco Central alerta para golpes nos quais criminosos obtêm dados pessoais e imagens da vítima para abrir contas ou contratar empréstimos por meio de reconhecimento facial.

E se meu nome foi negativado por causa desse financiamento?

Se a dívida é decorrente de uma contratação fraudulenta e a vítima não participou da operação, a negativação também pode ser questionada.

Nessa situação, é importante verificar a origem da dívida, contestar a contratação e reunir documentos que demonstrem a fraude. Dependendo das circunstâncias e das provas existentes, a vítima pode buscar judicialmente a declaração de inexistência do débito e a retirada da anotação indevida.

A possibilidade de indenização por danos morais também depende da análise concreta do caso, especialmente das circunstâncias da negativação e dos demais prejuízos causados.

Não reconheço um financiamento. Preciso procurar um advogado?

Nem todo caso necessariamente precisa chegar ao Judiciário. Se a instituição financeira reconhecer rapidamente a fraude, cancelar a operação e corrigir os registros, o problema pode ser resolvido administrativamente.

Por outro lado, quando o banco ou financeira se recusa a reconhecer a fraude, mantém a cobrança, registra a dívida no CPF ou causa outros prejuízos à vítima, pode ser necessário buscar orientação jurídica.

A análise individual é importante porque uma fraude pode gerar consequências diferentes: cobrança de parcelas, registro no SCR, negativação do CPF, bloqueios, perda de crédito e outros prejuízos que precisam ser identificados e documentados.

Descobrir que fizeram um financiamento usando seus documentos pode ser assustador, mas a vítima não deve simplesmente assumir uma dívida que não contratou.

O mais importante é agir rapidamente: comunicar a instituição financeira, contestar formalmente a operação, solicitar os documentos da contratação, registrar o Boletim de Ocorrência, consultar o Registrato e guardar todas as provas.

Quando a fraude não é solucionada, a legislação e a jurisprudência podem oferecer caminhos para discutir a responsabilidade da instituição financeira e buscar a correção dos registros e, conforme o caso, a reparação dos prejuízos sofridos.

Se você descobriu um financiamento, empréstimo ou outra operação financeira que não reconhece, o primeiro passo é entender exatamente como aquela contratação foi realizada e quais consequências ela já provocou em seu nome.

#direitos#consumidor#contrato