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Veículo com falha causou acidente: quem é responsável?

L.E. Guimarães21 de setembro de 20265 min de leitura
Veículo com falha causou acidente: quem é responsável?

Um acidente de trânsito nem sempre acontece porque o motorista estava dirigindo de forma imprudente. Em algumas situações, o problema pode estar no próprio veículo: uma falha no sistema de freios, um defeito de fabricação, um problema na direção, uma peça que se rompe inesperadamente ou até mesmo um serviço de manutenção realizado de maneira inadequada.

Quando uma falha mecânica contribui para um acidente, surge uma pergunta importante: quem deve arcar com os prejuízos? A resposta depende, principalmente, da origem do defeito e de quem tinha responsabilidade por evitá-lo.

Quando o defeito do veículo causa o acidente

O Código de Defesa do Consumidor estabelece que o fabricante, o produtor, o construtor e o importador podem responder, independentemente de culpa, pelos danos causados por defeitos do produto. O artigo 12 considera defeituoso o produto que não oferece a segurança que legitimamente se espera, levando em conta, entre outros fatores, a forma como foi apresentado, os riscos esperados e a época em que foi colocado no mercado.

Isso significa que, se ficar demonstrado que um defeito de fabricação ou de projeto contribuiu para o acidente, a responsabilidade pode alcançar a montadora ou outro integrante da cadeia de fornecimento.

O Superior Tribunal de Justiça já analisou casos envolvendo veículos que apresentaram defeitos capazes de provocar acidentes. Em um deles, por exemplo, a quebra de um componente do banco do motorista levou à perda de controle do automóvel e à colisão, tendo o STJ reconhecido a discussão sob a ótica da responsabilidade pelo fato do produto.

Por isso, não basta afirmar que “o carro apresentou um problema”. É necessário demonstrar a existência do defeito, o dano sofrido e, principalmente, a relação entre a falha do veículo e o acidente.

E se o problema aconteceu depois de uma manutenção?

A situação pode ser diferente quando a falha surgiu depois de um serviço de manutenção ou reparo.

Imagine, por exemplo, que o veículo tenha passado por uma oficina para realizar um serviço no sistema de freios e, pouco tempo depois, ocorra um acidente porque os freios deixaram de funcionar. Dependendo das circunstâncias e das provas, a responsabilidade poderá ser atribuída ao estabelecimento que realizou o serviço.

O próprio Código de Defesa do Consumidor prevê que o fornecedor de serviços responde pelos danos causados por defeitos na prestação do serviço, independentemente de culpa, ressalvada a situação dos profissionais liberais, cuja responsabilidade pessoal depende da comprovação de culpa.

Por isso, notas fiscais, ordens de serviço, orçamentos, mensagens trocadas com a oficina e registros das peças utilizadas podem ser documentos importantes para esclarecer o que aconteceu.

E quando a falha decorre da falta de manutenção?

Também é possível que a responsabilidade não seja da fabricante nem da oficina, mas do próprio proprietário ou condutor, caso o acidente tenha relação com falta de manutenção ou com uma conduta inadequada.

O Código Civil estabelece, em seu artigo 927, que quem causar dano a outra pessoa por ato ilícito deve repará-lo.

Assim, uma simples falha mecânica não significa, automaticamente, que haverá responsabilidade da montadora. É necessário analisar a origem do problema e verificar se havia alguma obrigação de manutenção, reparo ou cuidado que não foi cumprida.

Recall pode ser uma informação importante

A existência de um recall também pode ajudar a esclarecer a origem de uma falha.

A Senatran mantém um serviço de consulta de recalls vinculados aos veículos registrados no Renavam, com informações divulgadas pelas montadoras desde março de 2011.

Se o componente envolvido no acidente fazia parte de uma campanha de recall, essa informação pode ser relevante para a investigação do caso. Ainda assim, a existência de recall, por si só, não resolve automaticamente a discussão sobre a responsabilidade pelo acidente: é necessário verificar se o defeito apontado na campanha tem relação com o problema apresentado pelo veículo e com os danos ocorridos.

Quais provas podem ajudar em um acidente causado por falha mecânica?

Em situações como essa, preservar as provas desde o início pode fazer uma grande diferença. Laudos e avaliações mecânicas, fotografias do veículo, vídeos, boletim de ocorrência, notas fiscais de manutenção, histórico de revisões, ordens de serviço, documentos do veículo e informações sobre eventuais recalls são exemplos de elementos que podem ajudar a reconstruir o que aconteceu.

Também é importante evitar que o veículo seja reparado ou tenha peças descartadas antes de uma avaliação adequada, quando ainda existe uma discussão sobre a origem do defeito. Em determinados casos, uma perícia técnica pode ser fundamental para estabelecer a relação entre a falha e o acidente.

O STJ já destacou que, em ações de indenização envolvendo defeito de produto, o consumidor deve demonstrar a relação entre o produto e o dano, enquanto cabe ao fornecedor, nas hipóteses previstas pelo CDC, demonstrar a inexistência do defeito ou alguma das causas que afastam sua responsabilidade.

Quem sofreu o acidente pode ter direito a indenização?

Se ficar comprovado que uma falha no veículo foi responsável pelo acidente e pelos prejuízos, pode existir direito à reparação dos danos, conforme as circunstâncias do caso.

A indenização pode envolver, por exemplo, danos materiais relacionados ao veículo e outras despesas decorrentes do acidente. Se houver lesões físicas, também podem existir outros prejuízos indenizáveis, cuja análise dependerá das consequências concretamente demonstradas.

O ponto central é identificar quem deu causa ao problema e estabelecer o chamado nexo de causalidade, ou seja, demonstrar que a falha efetivamente contribuiu para o acidente e para os danos sofridos.

A responsabilidade não deve ser presumida: precisa ser investigada

Quando um veículo apresenta uma falha e provoca um acidente, a pergunta mais importante não é simplesmente “quem estava dirigindo?”, mas “por que o veículo falhou?”.

A resposta pode apontar para diferentes responsáveis, como o fabricante, uma oficina, outro prestador de serviço ou o próprio proprietário, dependendo da origem do problema e das circunstâncias do acidente. Por isso, antes de aceitar a versão apresentada pela outra parte ou pela seguradora, é importante reunir documentos e buscar uma avaliação técnica adequada.

Em casos envolvendo acidente causado por defeito mecânico, vício oculto, falha de fabricação ou manutenção inadequada, a análise jurídica deve considerar as provas disponíveis e a legislação aplicável ao caso concreto.

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